segunda-feira, 11 de setembro de 2017

11 de Setembro.

O dia 11 de Setembro de 2001 marcará para sempre uma mudança na sociedade ocidental construída após a II Guerra Mundial. 

A banalização do mal e a experimentação do medo fazem agora parte do nosso dia a dia sem que, enquanto conjunto, façamos alguma coisa para os combater. 


O individualismo exacerbado a que o modelo capitalista nos conduziu deixou-nos fragilizados e impotentes para intervir ou agir.

Parece que à medida que se desenvolve a ciência e a tecnologia, ficamos menos capazes e mais sós, numa indiferença alarmante. Até ser a nossa vez.


Dezasseis anos depois, as catástrofes naturais parecem querer ajudar à destruição do nosso modo de vida e organização social, talvez provocadas pela nossa própria incapacidade de as minimizar através da acção (tentar seriamente reduzir o aquecimento global, por exemplo).


O caminho da destruição anda por todo o lado e nós a fazer de conta que não é connosco. 


Assusta-me mesmo o não aprendermos nada com a história.


 

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Depois combinamos um cafezinho.

Esta frase, dita amiúde a amigos ou conhecidos num encontro ocasional, com a intenção sincera de vir a ser cumprida, raramente o é. 

Não por não o querer fazer mas porque os dias passam velozes, sempre há isto e aquilo, focados nos mais próximos, dificuldades de agenda, ou simplesmente inércia e nenhuma das partes toma a iniciativa de marcar o tal cafézinho. Não é por mal.

Um destes cafézinhos estava prometido a uma amiga recente, conhecimento de viagem, empatia mútua, longas conversas numa semana de dias e noites quentes pela Turquia. Conversas boas à noite, à volta da mesa, no fim dum dia de descoberta de outros mundos.
Amizade mantida depois no facebook onde nos íamos "vendo" e "conversando". 


Passaram três anos e não tomámos café, nem chá, nem conversámos ao vivo. Cada uma seguindo a sua vida, pseudo reconfortados pela partilha nas redes sociais?

A M. já estava doente quando nos conhecemos mas o seu bom humor e entusiasmo pela vida, o amor do marido e dos filhos, a felicidade de ter sido avó, faziam-me esquecer que aquela doença nunca falha, especialmente com os bons.

Deixei de a ver online e a minha pior suspeita confirmou-se. Fiquei muito triste, muito. Pela sua morte prematura, imerecida, injusta. Triste pelo encontro que não tivémos, pelo abraço que não aconteceu, um carinho adiado.

Triste comigo por não ter agido doutro modo. Gostava de ter voltado a encontrar esta senhora e o marido, termos conversado numa esplanada, recordado aquela viagem, partilhado pensamentos, despedindo-nos com a promessa de um outro futuro café mesmo sabendo que não iria acontecer. 

Sinto-me culpada.

Ao meu lado, nesta mesa, tenho uma folha com uma lista de contactos a fazer. 
Para combinar encontros, com ou sem café ou almoço, apenas saber da pessoa e conversar um bocadinho. 

Uma lista de pessoas de quem gosto, com quem partilhei momentos da minha vida e com quem deixei de me cruzar. Uma lista de pessoas que, quanto mais tempo passa sem lhes ligar, mais me custa fazê-lo. 

Olho a lista e, pela minha experiência, temo que a ausência de uma ou outra online não anuncie nada de bom.


Para a Manuela Castelhano com saudade e admiração 

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Bolonha.

I


Não sabia nada desta cidade para além do que se aprende em História e do que o meu filho me disse: "há muitos jovens". 

Comprei um guia em italiano quase sem fotos, bastante denso, que não consegui ler antes de chegar. Sabia que era uma cidade medieval. Só não sabia a dimensão, habituada ao nosso Portugal mínimo.

No primeiro impacte nem me apercebi mas, à medida que fui caminhando para o seu centro interior, percebi no que estava metida. O passeio da noite só deu para algumas ruas e praças, casas e torres, tudo construído pelos séculos XI e XIII, algumas reconstruções no século XIV ou XV. É impressionante. 

A mim fascina-me a construção desta época, a Alta Idade Média. Sem a sofisticação e elegância da Florença do Risorgimento, é muito bonita. Pareço uma tontinha a ver tudo sem saber para onde me voltar... 

Praticamente todas as ruas têm arcadas debaixo dos prédios, antigos e novos. 


Interessante também verificar como, apenas 90 km mais acima, tanto muda. Até a comida é diferente da toscana. Jantámos excelentemente no Ristorante Donatelo, que tem 114 anos. Não sabíamos, foi escolhido apenas por instinto e rápida observação dos pratos dos outros... 

2 de Junho de 2017


II

Gosto mesmo do café por cá. Quer dizer, gosto muito de café e aqui o sabor é mesmo muito bom. Tenho exagerado à conta do expresso ser tão curto que se vai em dois golos. Começo logo a manhã com quatro que são só oito golos. Também ajuda a dar energia para o caminho.


Hoje tracei um percurso que não desiludiu, antes maravilhou. Adoro percorrer ruas, descobrir sítios e surpreender-me com o desconhecido.

Bolonha surpreende pela dimensão da cidade antiga conservada. Os edifícios mais recentes - do século XV ou XVI - combinam com os originais trezentos anos mais antigos. Sempre com arcadas por baixo das quais se pode percorrer toda a cidade. Incrível mesmo.

Do muito visto hoje, adorei o conjunto da basílica de San Stefano. Primeira construção do ano 80 d.c. ainda romana. A piazza e ruas perto também são uma maravilha.

Inesperado foi entrar, quase por acaso, no regresso da Università, na Basílica di San Giacomo Maggiore e encontrar a capela Bentivoglio, da 2a metade do séc XV com pinturas belíssimas que fotografei à má fila. Também o fiz no oratório de Santa Cecília mas em ambos os casos foi só uma foto e sem flash. Como gostaria de viajar no tempo e passar por aqui há uns 600 anos atrás quando as igrejas e palácios eram todos pintados, colunas inclusive.

É giro vir pela via Zamboni e perceber a inclinação da torre Garisenda. E ficar a admirar os 97m da torre Asinelli.

Almoçámos muito bem numa trattoria super simpática mas, mesmo assim, pouco depois, à beira da basílica de San Domenico, tive que me esticar um bocadinho para aguentar o resto da volta. Foi agradável estar a ver o céu através da sombra das árvores que o calor continua imparável. 


Ainda visitámos o Palazo delll'Archiginnasio, belíssimo, onde funcionou primeiro a universidade de Bolonha. Pagámos bilhete dentro do palácio para ver o teatro anatómico que foi destruído em 1944 por uma bomba americana mas resconstruído como o original do séc XV. 

De resto, o turismo brutal da bela Firenze ainda não chegou e quase tudo é de borla e sem gente a mais.

Na rua, por todo o lado, há lojas locais e das grandes marcas e costureiros. Com montras deliciosas. Na via dell' Indipendenza parece que ninguém fica em casa. 

Ah, sabiam que existe um canal qual amostra de Venezia?

Imagino que à hora do jantar tudo acalme para ver o jogo Real Madrid - Juventus mas não sei.
3 de Junho de 2017


III

Os acontecimentos de ontem à noite em Londres e Turim não ajudaram a uma boa noite de sono. E o medo de andar de avião deixa-me sempre ansiosa antes de qualquer viagem, grande ou pequena. 

Por isso, a manhã de hoje foi de última volta por Bolonha mas sem a leveza habitual das férias. O facto de fazermos oito meses de casados ajuda a alegrar mas passar o check-in foi complicado com as meninas italianas da TAP a não perceberem os nossos nomes... já está.

O aeroporto é pequeno e está cheio sem lugares para sentar. Nós conseguimos dois num café e também sacar free wifi se não estava agora a ler o livro do Houllebecq que veio e vai na mesma. Não que não seja bom mas o corpinho tem andado enxalmado e adormece mal encontra a cama.

Esta manhã descobrimos mais três igrejas góticas fabulosas. Mais ruas e pracetas. E gente dum lado para o outro sempre. Sobretudo jovens e italianos.

À hora do almoço uma nuvem descarregou uma chuvada forte que deixou no ar cheiro a terra mas a temperatura não baixou dos 30 graus de toda a semana. Voltámos a almoçar no sítio de ontem, de novo bem. 

Gostámos muito da cidade e muito fica por ver. Deve ser gira no Inverno, com frio.

4 de Junho de 2017



quinta-feira, 8 de junho de 2017

Florença.

I

21 anos depois reencontrámos o Mamma Gina. Igual. Os mesmos empregados, a mesma decoração, a mesma comida boa.


Gostei de voltar. Para nós, foi um sítio especial no passado. Tal como toda a cidade. Já nem me lembrava da imponência dos monumentos, da beleza. De como ficamos esmagados quando nos aproximamos do Duomo ou entramos na Piazza della Signoria e vemos o Palazzo Vecchio. 

Amanhã tenho que conseguir rever o David original. Se o excesso de turistas deixar. Ah, o fim do dia no Arno...

30 de Maio de 2017






II

De manhã, mas não de madrugada, a fila para a bigleteria da Galeria della Accademia era compacta e dava a volta ao quarteirão... a fila para entrar era muito maior debaixo dum sol já implacável. 

Claro que seguimos caminho deixando para depois (quando?) a visualização do corpo de David magnificamente esculpido por Miguel Ângelo. O mercado central desiludiu mas deixamos escolhidos para amanhã tomate seco e sal rosa que tentaremos levar na mala no regresso. Procrastinação. 

Enquanto bebia outro café - o que gosto destes cafés - tracei no mapa um plano. Ir até Santa Croce, almoçar perto, atravessar a Ponte alle Grazie, subindo depois até ao Forte di Belvedere e descer pelo Palazzo Pitti. 

Assim foi mas não sem sofrimento. Os grupos imensos de turistas asiáticos são uma praga a que se juntam os outros milhares como nós. 

A cidade nos sítios mais visitados está muito suja. Só se consegue entrar nas igrejas menos conhecidas. Vimos uma manifestação por causa do excesso de turistas no centro histórico (ai, Lisboa).

Cumprimos o plano, embora atravessando na Ponte San Niccolo, mais longe. Não foi fácil subir até ao forte debaixo do calor intenso apesar dos chapéus e das garrafas de água.
 Quando lá chegamos, o forte estava fechado ao público. Restou-nos descer pelo Giardino di Boboli até à Piazza Pitti. A pagar, claro. Valeu o preço. 

Regressamos a casa - sim, estamos numa 'home in palace' - com as solas a doer...
Lindíssimo o interior da Basílica della Anunziata que fica na esquina da nossa rua.

                                                                                                         31 de Maio de 2017














III

Finalmente, o David original. Miguel Ângelo criou-o entre 1502 e 1504. Passaram mais de quinhentos anos. É impressionante de perfeição nos seus cinco metros de altura. 

Admiro tanto os criadores do Renascimento. O que seria de nós sem a arte? 

Não foi fácil chegar a David. Havia mesmo muito gente com o mesmo objectivo...
Última tentativa pelas cinco da tarde. Fila de apenas 40 minutos. Volto de barriga cheia, em todos os sentidos.


A propósito da perfeição do corpo de David, constato que os italianos, pelo menos nesta zona da Toscânia, se mantém magros e elegantes. A moda são calças muito estreitinhas em baixo, meio palmo de tornozelo à vista, sem meias, claro, e com sapatos de camurça.

São bonitos os homens de meia idade porque os mais jovens já se estragaram com a mania das tatuagens. 
Que seria de David se em vez de uma pele branca e macia, como a pedra transmite, tivesse os braços e as pernas cheios de desenhos escuros? E barba? 

Por falar em homens bonitos, há bocado vimos um tipo ser preso na rua com grande aparato policial. Vieram vários polícias, todos novos e de grande caparro, que o tal homem não se deixava prender e a coisa foi complexa. Constatei como eram bonitos apesar de não falharem as tatuagens. 


As nossas forças policiais também melhoraram mas ainda lhes falta uns 40cm na altura e o bronzeado permanente, ma non tropo.

                                                                                                          1 de Junho de 2017


Lucca.

I

Há sítios onde chegamos e entram em nós como se sempre os tivéssemos conhecido. Passam a pertencer-nos. Imaginamo-nos a viver neles. Queremos ficar. Cheguei ontem à tarde e apaixonei-me. 


Há vinte anos que não vinha à Toscânia. A minha memória era a de grande beleza. 

Florença, Siena, San Giminano, o campo, a arte, o David, o renascimento, as pessoas, a comida, as torres. O fascínio das torres magras e muito altas de tijolo ou pedra que surgem da intensidade do verde.

Ontem, no percurso de carro entre Bolonha e Lucca, voltei a extasiar-me com a beleza da natureza e a construção do homem. 


Não sei se há zona no mundo com maior perfeição a todos os níveis. 


Não sabia nada de Lucca até começar a preparar esta viagem. Cidade antiga, medieval, torres e igrejas, muralhas, a terra de Puccini. Pensei que mais uma das muitas que já vi antigas e belas.


Mas Lucca é muito mais. A dimensão, a estrutura, a mobilidade, a antiguidade, a modernidade, as montanhas. Adoro estar rodeada de montanhas e perto do mar. 


Hoje estive na praia tendo atrás os picos impressionantes, ainda com neve, dos Alpes Apuane. Antes tinha visitado a montanha, umas termas e descoberto uma ponte única num cenário imbatível. 

Jantei ao ar livre sem casaco. E sem vento. Percorri ruas fascinada com a descoberta de casas, becos, janelas, igrejas, cantos e encantos. 


Tenho a certeza que se vivesse aqui seria feliz. E só cheguei ontem.


                                                                                                       28 de Maio de 2017

II

Quando a meio da manhã entrei na cittá pela Porta Elisa o calor já picava pelos 28 graus. Aqui não há o nosso ar atlântico para amenizar. O calor é seco e intenso, como na montanha. 


Fui pela sombra directa ao plano pensado ontem à noite. 

Subir a Torre Guinigi antes de aquecer ainda mais. Cheguei lá acima ensopada em suor mas ainda deu para refrescar com a brisa suave que se sentia. Nunca tinha visto uma torre, neste caso dum palácio, com árvores no terraço. Foi difícil sair daquele sítio. 

Só o facto de não ser só para mim acabou por me decidir a descer. Filmei e fotografei a perfeição e a beleza de que ontem já falei à exaustão. Nenhuma imagem transmite a sensação de estar ali, quase no céu, bem acima do casario, uma luz fantástica. 

Talvez só um drone testemunhe o mesmo mas com um ruído insuportável... e sem alma. Apetecia-me ficar a bisbilhotar cada casa, terraço, janela, ruelas, confirmar as igrejas e as zonas agora quase todas conhecidas. Desci sabendo que é pouco provável voltar. 

Cá em baixo, na rua, o sol picava implacável. Meti-me pela sombra até ao museu da casa de Puccini. Gosto tanto quando deixo de precisar de mapa. Era em cima, talvez no terceiro piso, a testa pingava-me. 7€ mal empregues porque foi uma desilusão, ou eu não sou fã do homem, prefiro outras obras. Valeu pela utilização da casa de banho. O meu grande drama das viagens. 

Ainda fui até à igreja de S.Frediano, bonita por fora, pagava-se lá dentro, ficou por ver.

Quase uma, sem sombra, fui almoçar à Piazza Anfiteatro. Cheia de turistas. Devia ter evitado e ter ido comer à osteria da Via della Fratta onde jantamos no sábado. 

Já tinha pensado alugar uma bicicleta para fazer o percurso em cima da muralha.

Lucca é uma cidade em que as pessoas estão primeiro, logo seguidas pelas bicicletas. Toda a gente anda. Idosos, novos, todos. Não a fazer corridas vestidos de lycra colorida. Mas sim super bem vestidos para se deslocar. 

Por 3,5€ lá biciclei uma hora em cima da muralha, descobri jardins e terraços, verde e verde, sem esforço. Que pasteleira confortável, adorei. Ainda entrei no centro, aparquei a bicicleta e fui ver o Duomo por dentro. Como quase sempre nestas igrejas gigantes de mármore, falta qualquer coisa. Lá se foram mais três euros que os italianos não são meigos a cobrar. Davam para outra hora de passeio. 

Devolvi a bicicleta, as lojas só abriam às quatro. Resolvi fazer os três quilómetros a pé até ao hotel e descansar à sombra até sair de novo pelo fim da tarde. Do quarto vejo os Alpes Apuane e basta-me.


                                                                                                          29 de Maio de 2017

III

Lá fui eu à última volta. Aluguei outra bicicleta e meti-me à estrada. 


Via Romana onde fica o hotel, fora da muralha, nuns carraboiçais sem graça, com trânsito a sério. Em Roma sê romano, foi o que fiz. Neste caso, em Lucca sê luccano. Senti segurança numa pasteleira mais que usada a contornar rotundas e a pedalar cabelo ao vento, que por cá ninguém usa capacete. 

Despedida da agora minha cidade preferida. 


Aparquei e percorri as ruas das lojas. Até do estilo das roupas eu gosto. Há coisas lindas, de linho, com números grandes. Há senhoras de idade lindas, roupas tão giras e nas suas bicicletas. Caramba, saio daqui inspirada! Porque é que nunca me lembrei de conjugar isto assim? 

Volto à bicicleta, pouso os sacos na cesta, alguém me pergunta onde ficam os correios. Quer dizer que passo por luccana, fico feliz. 

O sol queima mas hoje está mais fresco, 27 graus. Dou mais uma volta. Piazza de S. Michel, San Martino que é o Duomo, miro de novo a Torre Guinigi e a Torre del Oro.
Tenho que ir. Pedalo leve até à Porta Elisa, já não dou outra volta à muralha. Em dez minutos estou no hotel.


Chiao, Lucca! Quando for velhinha, venho para cá morar, sonho.

                                                                                                          30 de Maio de 2017










quarta-feira, 3 de maio de 2017

Os cães.

Sofri muito em miúda com medo dos cães. 

Nunca percebi bem de onde me veio esse medo. Mesmo quando tivemos um cão, lá pelos meus dez ou onze anos, um pastor alemão inofensivo, que brincava comigo e com a minha irmã, às cambalhotas e aos saltos em cima da cama, nunca fui de intimidades. Tipo mexer no focinho, meter a mão na boca, lambidelas e outras marmeladas que vejo nos donos de cães, em maioria na minha família e amigos.

As bocas dos cães, cheias de dentes com caninos ameaçadores, sempre me meteram respeito. Já bem crescida, não era sem sofrimento que tentava mostrar à vontade quando jantava em casa duma prima rodeada por S. Bernardos gigantes que insistiam em instalar-se ao pé de mim e tentar meter o focinho no meu prato.

Cruzar-me com um cão no passeio foi um tormento toda a vida. Mesmo com o dono por perto a dizer "não morde", o receio não abrandava. Talvez por isso, os cães vinham sempre ter comigo, a cheirar-me e a saltar para cima de mim.

A minha vida está cheia de episódios de fugas e contornos, passagens entre os pingos da chuva.

Com o Miró em 2002
Foi preciso chegar aos quarenta e muitos, cinquenta, para conseguir lidar de perto com cães pacíficos como os golden retriever ou os labrador, muito graças ao cavalheiro Miró da minha amiga Manuela, ou, mais recentemente, graças à Miga ou à Pipa, cadelas de amigos, bem educadas que me deixam fazer festas e estar sentada à mesa relaxada. Até consigo esquecer-me que estão no mesmo espaço que eu.

Como todos os miúdos, o meu filho também teve um período em criança que queria ter um cão mas nunca aconteceu pois sei bem que sobraria para mim. Tratar, lavar, vacinar, passear, limpar o cócó, mimar, tudo o que implica. Para além de que a casa era pequena demais apesar de, no prédio, abundarem os cães, e grandes.

Ao mesmo tempo, sempre lamentei este meu medo porque um cão é uma grande companhia, um amigo fiel. Bem vejo o que se sofre quando eles morrem. Bem vi o consolo que foi para o meu pai a sua cadela Minnie quando ficou paralisado pelo avc.

Lambidelas amigas.
Na modernidade urbana de hoje, quase se contam pelos dedos da mão quem não tem cão ou gato. Para além de ser moda, também funcionam como substitutos das relações humanas. É bem mais fácil ter um cão que um namorado.

Há um crescendo de atenção aos animais em detrimento do ser humano que me espanta. Fico contente que tenham deixado de ser coisas mas convém que impere o bom senso. Quantas vezes vejo mais empenhamento em salvar animais da pobreza e do abandono do que pessoas.

Vencido o medo dos cães, já posso dizê-lo, continua a aterrorizar-me a existência de cães de raças perigosas. E haver quem os defenda como se fossem iguais aos outros.

Em Portugal, existem mais de 16 mil, segundo dados divulgados estes dias a propósito dos recentes ataques de cães a crianças. O número de ataques é elevadíssimo e inaceitável. Este ano, já morreram dois idosos vítimas de ataques de cães.

Por mim, defendo a proibição das raças perigosas. São espécies de comportamento agressivo, com mandíbulas de grande potência, muitas vezes resultantes de cruzamentos de raças entre si. A legislação obriga a que os donos tenham formação e eduquem os cães mas parece evidente que não é cumprida. 

Com tantos cães bons e bonitos, de raça ou rafeiros, muitos abandonados à procura de dono, o que leva alguém a escolher ter um cão de raça perigosa? Mostrar poder? 

Apesar destes factos não contribuírem para a superação do meu medo, ainda sonho ter um cão um dia destes.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

1 de Maio.

Fomos dar uma volta por Lisboa, sem destino certo, aproveitando a temperatura mais fresca. 
Apanhámos o eléctrico em Belém e saímos na Praça da Figueira. 

No Martim Moniz, juntavam-se pessoas para a manifestação da CGTP, poucas demais quase na hora do início. Representam cada vez menos trabalhadores, os sindicatos. Já em casa, ouvi na rádio que tanto em Lisboa, na CGTP, como em Viana, na UGT, participaram poucas centenas de pessoas. Quem defendem? A função pública e os transportes? Para que servem actualmente? Talvez por ter trabalhado sempre no privado, nunca senti que defendessem os seus trabalhadores. Seriam já colaboradores?

Que propostas têm para a situação actual do trabalho? Para a falta de pagamento digno? Não os vejo discutir o futuro do trabalho, a robotização, como evitar as novas formas de exploração que florescem por todo o lado? Como educar e ajudar os jovens que trabalham, em startups, no turismo, nos tuck tuck, a serem devidamente remunerados, a terem direito ao descanso, por exemplo? 



No Largo do Intendente, cheio de gente nas esplanadas, um grupo de defesa dos precários organizava cartazes de protesto. O meu grupo.

Lisboa com as ruas cheias, nas principais e nas outras. A Almirante Reis na zona do Intendente está uma autêntica China Town. 


Subi a Campo Santana. Está tudo mais bonito, casas recuperadas, outras não, gente nova, portuguesa e de fora. Talvez demais mas há alegria e movimento. Os nossos velhos que saem para apanhar sol, os que ainda moram por ali. Fiquei mais tranquila, ainda há bastantes. Os outros, são orientais. Comprei água num mini mercado de uma senhora indiana. O comércio local está de volta e em força.

Passear pelo Jardim do Torel é sentir o lazer romântico do século XIX. Olhar e olhar o casario de Lisboa sem apetecer sair dali. Tão bom, tão bonito, como podem os estrangeiros não se apaixonar por esta cidade? 


O mundo parecia suspenso ao sol. Regressamos, sempre a descer até à Baixa, para apanhar de novo o eléctrico para casa, de novo na Praça da Figueira, turbulenta de gentes.







terça-feira, 11 de abril de 2017

Imagens ou palavras?


Tem-me apetecido mais as imagens que as palavras. 

Não é habitual em mim. Apesar de ser uma pessoa visual. Sensível ao ambiente que me rodeia. Dentro ou fora. Cidade ou campo. Onde estiver.

Releio textos antigos, não tanto, apenas de há três anos. Espantada. 
Já não consigo escrever assim. Agora que queria concretizar um velho plano de escrita. 

Preciso da adversidade para escrever. Feliz, em bem-estar, com tranquilidade, tenho dificuldade. Se tivesse talento, fá-lo-ia em qualquer situação. Devo persistir antes de desistir. Sou teimosa.

É mais fácil ficar pelas imagens. Que podem dizer tudo. Sem classificar. Sem opinar. Cada um que pense o que quiser.

Estranho esta atitude que me assola há tempos. Não me é característica. Lá no fundo de mim, há uma pressão. Uma obrigação de me manifestar sobre o que se passa, o que importa. Tomar partido. Não ser indiferente. 

Todos os dias há assuntos novos. Os velhos mantém-se. Não faltam temas. 

Enquanto caminho - e tento fazê-lo todos os dias, evitando químicos que teriam o mesmo efeito - a cabeça fervilha-me com frases, planos para textos. Reparo em pormenores que não quero esquecer para referir algures num texto que não sei se vou escrever. Se não apontar, esqueço.

Para anotar, tenho que pôr os óculos. Sempre vi tão bem. Até. Até há uns anos. Vai piorando e, mais dia menos dia, terei que usar óculos sempre. Afecta-me. É um obstáculo que me afecta o fazer. Pôr óculos, tirar óculos. Porque prá frente, pró longe, não preciso. Um objecto a impedir a leveza do caminhar "sem lenço sem documento", como canta Caetano.

Não posso andar sempre com os óculos postos se não tropeço. Ando com mais cuidado do que nunca para não cair. Piso a calçada aos altos e buracos de cabeça no chão quando queria era estar a olhar à volta.

Preciso de sentir os outros, de me misturar. Na minha nova vida há isolamento. 
Trabalhar em casa. Apesar dos contactos e de uma ou outra reunião.
(ah, o que gostei de ver ontem, por acaso, na televisão, o filme português de Patrícia Sequeira "Jogo de Damas", em que uma das mulheres amigas, reunidas pela morte de uma delas, grita exasperada "os contactos, contactos para isto e para aquilo, fazer contactos, estou farta de contactos") 

Preciso de me misturar e observar. Lembrar um mundo do qual saí e ao qual não quero voltar. Mas que não quero esquecer. Tem coisas que só se apreciam muito depois.

As conversas entre colegas na hora do almoço, o centro comercial, o restaurante, uma volta pelas lojas nas redondezas, os saltos e os sapatos. O olá a um colega. Conhecer de vista este e aquele. O tempo do caminho. As horas e os limites. O trabalho por conta de outrem, o salário certo todos os meses. 

Cada vez uso menos sapatos. E saias. Tenho-me entretido a observar os pés das pessoas. Cada vez há mais ténis nos pés. Nas filas de turistas para os monumentos mas também nas filas para o almoço no centro comercial. Ténis para todas as idades e feitios. Cores e sofisticações. Já não vejo que se justifiquem os sapatos. Pelo menos com saltos...

Caminho o mais possível e observo. 

Polícias que deviam vigiar estão sempre de olhos no smartphone, o que estão ali a fazer?

Idosos saem cedo na manhã para o pingo doce, o andar incerto. Penso que podem cair a todo o instante mas lá se aguentam no ir e vir. Respondem a um bom dia com um sorriso. Sobretudo as mulheres. Gosto de velhos, já sabem.

Jovens da periferia na marmelada, em cantos e bancos, já não escondidos como antes. Vestidos de igual. Com tatuagens. 

Entro na padaria dita portuguesa para comprar dois croquetes e todos os jovens que atendem têm os braços desfigurados por tatuagens. É feio demais. Felizmente, já não vou cá estar para os ver velhinhos com a pele seca e enrugada. Como ficarão os desenhos agora esticados?

Ainda não são dez da manhã. Volto a casa. Continuam os debates sobre a guerra possível, Trump, a Síria e a Coreia do Norte. Espero o pior de tudo isto. Há muito que o espero, prevejo. Sou pessimista como me dizem. Respondo sempre que apenas realista. 

Foco-me nos pormenores da vida que tenho. A minha fuga.