sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Catequese e assédio.

Lembrei-me da catequese e da minha catequista nos idos anos 60, a propósito do episódio de suposto assédio sexual por um professor de religião e moral contado há dias por António Lobo Antunes.

A catequese, em particular a Marília, era este o nome da minha catequista, funcionou na minha infância como um autêntico assédio. Moral. Será o termo certo?

Não sei mas vivia aquilo com um temor imenso da senhora, uma mulher magra e seca, de cara fechada e amarga, julgo que "freira sem hábito". A sua pregação, onde não cabia nem um sorriso, nem alegria, nem conversa, incutia-nos fortemente o medo, todos os sábados à tarde. O medo tão necessário naqueles tempos em que as crianças deviam ser formatadas a obedecer, à Igreja e ao Estado.

Teria uns sete, oito anos?

Em casa, à noite no escuro do meu quarto, tremia de medo que Deus me aparecesse envolto em nuvens e vapores com o coração aberto e pingas de fogo que o grafismo da época fornecia em quantidade.

Deus era omnipresente, uma entidade que, desde o céu, via tudo, estava em toda a parte e sabia tudo o que fazíamos. A sua vingança podia ser terrível, daí aparecerem raios a sair das suas mãos...

Mas o que eu temia mais era uma aparição. Pois, porque Deus também nos podia aparecer se fossemos bons e escolher-nos para santas. E eu achava-me muito boazinha, portanto, considerava-me potencial seleccionada.

Lembro-me nitidamente deste medo. De estar no meu quarto, a luz apagada a tentar dormir e à espera que Deus me aparecesse... Algo que não me atrevia a partilhar com ninguém, nem com a minha irmã nem com a minha mãe, muito menos com amigas que certamente gozariam com este meu receio.

A Marília catequista atemorizava-nos com Deus, os sacramentos e os perigos da sexualidade. Termo que não se usava, claro, mas que era induzido subjectivamente.

Até muito tarde, acreditei que se podia engravidar por se dar um beijo num rapaz, nos lábios, claro. O pecado e a culpa, um horror.

Felizmente, deu-se o 25 de Abril tinha eu catorze anos e fui-me libertando da religião. Passei rapidamente da devoção de querer ser freira para revolucionária marxista leninista despudorada.

A liberdade sexual aconteceu naturalmente mas livrar-me dos sentimentos de culpa que a religião advogava só bem mais tarde.

Ouvir agora o cardeal patriarca de Lisboa aconselhar os divorciados recasados a absterem-se de ter relações sexuais, indo buscar uma recomendação da exortação apostólica Familiaris Consortio, de 1981, é ridículo pela sua impossibilidade real...

Não acredito que qualquer casal católico, casado segunda vez, se abstenha e viva como irmãos.

Aliás, estas recomendações são tão patéticas como a doutrina do sexo servir só para a procriação, tão deliciosamente retratada no poema de Natália Correia de 1982 a propósito do deputado Morgado:

"Já que o coito - diz Morgado -
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou - parca ração! -
uma vez. E se a função
faz o órgão - diz o ditado -
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado."


O celibato dos padres, para além de ter provocado séculos de culpa e pecado, é uma imposição anti natureza. O sexo é uma necessidade fisiológica do homem, animal como os outros, e de benefícios incontáveis para o físico e para a alma... Ai, se a Marília ouvisse isto!

Voltando ao catecismo, pus-me a pesquisar na net as imagens que tanto marcaram e atormentaram a minha vida inicial mas não as encontro e não me lembro de ter guardado os livrinhos da época.

Verifiquei que o grafismo actual do catecismo e da catequese é alegre, tipo desenho animado, em que a última ceia mais parece uma festa de anos e as línguas de fogo do pentecostes uma farra de Carnaval. 

Apesar disso, parece que a repressão sexual continua...

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Cem Anos.



Há cem anos, na maioria dos países desenvolvidos as mulheres não podiam votar.

Votar como os homens foi um direito arrancado a ferros. Ter opinião própria e direito de a exercer.

Caramba, ainda se batalha por isso em grande parte do mundo.

Cem anos, em termos de história da humanidade não é nada. Quando falamos de épocas/regimes da História, tipo a Idade Média, juntamos muitos cem anos cheios de diferenças mas que para nós, na actualidade, parecem todos iguais.

Disto, podemos concluir que nos devíamos espantar menos com a continuação da desigualdade, com os seus avanços e recuos.

Há bocado, enquanto almoçava fora, a televisão ligada nas notícias, anunciava casos seguidos de mulheres mal tratadas pelos maridos, pelo menos um directo para um rapto, logo seguido do anúncio de uma outra queimada pelo marido.

Portanto, olhando dum modo macro para estes cem anos, apesar dos imensos progressos da segunda metade do século XX, as mulheres continuam a ser lixadas pelos homens na maioria do Mundo, com níveis diferentes.

Custa-me um bocado admitir isto mas não dá para outra conclusão.

Sinto-me sempre privilegiada nesta matéria porque toda a vida usufrui de liberdade pessoal.

Nasci num ano que me permitiu usufruir dos direitos conquistados pelas mulheres nos anos 60 e 70. Até a liberdade sexual, agora ameaçada.

Os homens que foram fazendo parte da minha vida, amigos, colegas, namorados, flirtados, maridos nunca me quiseram reprimir.

Não sei se alguma vez lhes passou tal pela cabeça mas certamente sabiam da impossibilidade de o fazer ou, espero, consideravam-me igual a eles.

Não sei. Só saí uma vez para jantar com um tipo, bem parecido e simpático, que quando, à mesa, peguei naturalmente na carta dos vinhos para ver e escolher ou sugerir um, disse que com ele as mulheres não escolhiam vinhos. Escusado será dizer que foi a última vez que o vi.

Ameaças de assédio aqui e ali não conheço nenhuma mulher que não o tenha tido mas nunca ninguém se despiu e masturbou numa reunião, como os casos de Holywood. Talvez por os nossos ambientes não serem aquecidos ou pressentirem a lambada certa que levariam.

Dito isto, cem anos passados, continuamos lixadas.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Inverno.

Atravesso Monsanto e espanto-me com as primeiras flores de amendoeira. A lembrar as minhas origens.
Ao fundo, rio e mar estão cinzentos, reflexo das nuvens frias no céu. É Inverno.
Sinto-me com mais força. Bem estar físico em reposição depois da fragilidade em que estive. Como é fácil passarmos do bem para o mal. Num ápice. Voltar ao bem demora mais, sempre.
O dia é de memórias boas e de saudade profunda. Só morrem os que fazem falta. O pior da morte é a impossibilidade de contacto. O não ter resposta à nossa conversa. Tê-la para a parede ou ficar a moer-nos o cérebro sem alternativa.
Oiço Santana e Rio. Pedro ou Rui? Não gostando de ambos, escolho Rui, esperando que nenhum dos dois volte ao poder, nunca.
Pedro decidiu armar-se em Pedro dos lábios finos apesar dos seus não o serem. Deve ter beijado muito, importunado muitas mulheres este Pedro que o outro tem ar de não ser dotado para a coisa.
Pelo mundo, discute-se se o importunar é assédio. Depende. Se se trata de demonstração de interesse por alguém e que, sem a devida correspondência, não insiste, não é. Se esse importunar persiste e é feito em contexto de poder, passando rapidamente a imposição e ameaça, é.
Nem sempre tudo é claro nesta matéria mas acho que cada um sabe bem quando um "dar em cima" se torna outra coisa, algo ameaçador e confrangedor.
Quem, com alguma idade, e num contexto profissional, não foi nunca importunado? Por vezes, roçando o assédio? Vivi alguns episódios que podiam tornar-se nisso mas que nunca arrisquei que chegassem a esse ponto.
Nem sempre foi fácil fugir e seguir em frente porque há uma linha muito ténue entre a realidade e o que pressentimos. Essa linha faz-nos sentir, a nós mulheres, ridículas.
Ah, estou a achar que aquela atitude é o tipo a querer alguma coisa quando está só a ser cortês e a convidar para jantar? O melhor é não aceitar, certo? Falo de contexto profissional em que o ele é administrador da empresa e o eu funcionária da mesma.
Tive sorte? Talvez mas não só. Está nas nossas mãos agir logo. Há um risco? Há. Lixarem-nos a vida, a carreira. Mas também aqui, é uma opção nossa. Queremos viver uma carreira à conta disto? É o que me faz confusão nestas denúncias tardias de Hollywood.
Como diz a louca da Raquel Varela, estas actrizes não eram propriamente as operárias fabris miseráveis com um rebanho de filhos para alimentar da indústria portuguesa nos anos do Estado Novo em que o patrão não dava hipóteses.
Sobre isto, nada como ler "As mulheres da Fonte Nova" da Alice Brito e estamos falados.
Para fugir de tanta discussão, oiço David Bowie. Tudo o dia todo. Não me farto.
Partiu no mesmo dia do António, umas horas antes.

domingo, 31 de dezembro de 2017

2017.

Mais um dia 31 de Dezembro. 
O tempo, sempre esse, parece que foi ainda mais veloz em 2017...

Acordo nostálgica. Parada. A olhar o vazio durante o pequeno-almoço, sem apetecer alterá-lo.

Menos por causa do último dia do ano, mais por ter tomado Flexiban ontem à noite. As dores na cervical estavam difíceis de suportar. Dormi no sofá até às tantas, depois na cama, e acordei sem força para as tarefas do dia. 

Ao lado, o meu marido está cheio de energia. Na cozinha, às dez da manhã já a preparar o jantar, todo contente. Gosta de cozinhar. Admiro-o.
Eu, de péssimo humor, protesto. Vai sobrar, há tanta gente a passar fome, é um desperdício, caramba, estamos de dieta, não podes parar um bocadinho? Responde-me com carinho e fico sem saber o que dizer.

Fujo para o sótão. Tenho saudades do vagar deste dia, quando, sem programa nem convidados em casa, vagabundava pela casa e me arrastava do pequeno-almoço para o computador, em pijama, para escrever.

Releio as minhas escritas deste dia que o Facebook trás. Textos que escrevi nos últimos anos e de que gosto. Exprimem o que penso, não há nada a acrescentar. Está lá tudo.

Sinto que em 2017 destreinei. Não pratiquei o suficiente. Fui desistindo. O que me faz sofrer. Desculpo-me com a falta de tempo sossegado, só meu, sem horas. Mas sei que não me disciplinei para o ter. O Facebbok, o Whatsapp, o Linkedin, ocupam tempo demais. Não gosto.

Passei boa parte do primeiro semestre a planear com entusiasmo a escrita dum livro. Estrutura, personagens, história. Tudo como aprendido e estudado. A história ainda quente na minha cabeça, a minha?

Quando pus a mão na massa, saíu tudo mal, sem qualidade. Antes de desistir, dei a ler a uma amiga com o pedido de sinceridade. O que aconteceu na resposta: podes fazer muito melhor, assim não dá. Falei com uma escritora cujos livros sorvi e fui percebendo que não pode ser como idealizei. Não é o destino. A verdade é que não li os clássicos gregos nem sei o suficiente de mitologia grega. Razão tem o Mário Carvalho que diz que é essencial.

Tenho esta coisa do livro pendente em mim desde pequena. Não sei exactamente com que idade, mas sei que foi antes dos treze, escrevi um livro de aventuras ao estilo dos Cinco. Numa sebenta, aliás duas. Quando viemos viver para Lisboa, foi para o lixo no meio de tantas tralhas que a minha mãe deixou para trás. Ainda hoje sinto um nó na garganta por ter perdido esses cadernos. 

Toda a vida, toda, a minha cabeça fervilhou com ideias e frases, histórias e pormenores, para o tal livro. Mas a vida, trabalho, filho, casa não deixavam espaço. E agora acho que estou demasiado feliz para o fazer. Ou tenho preguiça. Ou sou apenas realista. Há milhares de pessoas a escrever. É mais fácil contar pelos dedos quem não o fez. Decidi aproveitar o tempo para ler.

Tenho pena que o tema que queria tratar não apareça na literatura. Que eu saiba. 
Da forma que vivi. A vida das mulheres que trabalham em empresas, em Portugal, no século XXI. Não no Estado nem no Ensino. Mas no sector privado. Que não dão nas vistas. Que não têm poder. Que seguem invisíveis no seu dia-a-dia. Que são alvo de muita discriminação. Que persistem. Que fazem acontecer.

O livro, não a edição, a escrita, era um objectivo para 2017 que não alcancei. 

Deste ano, que acaba, também guardo outra angústia. A percepção que, no campo profissional, já não tenho valor. Que a experiência ou o saber num campo específico, que representou trinta anos da minha vida, não interessam nada hoje. 

Já o sabia, claro. Todos sabemos mas é diferente quando o sentimos na pele, quando o vivemos e percebemos que não há volta a dar à idade, à miserabilidade dominante, à falta de valores e respeito pelo outro que são a lei actual. Repugna-me.

Claro que podia ter que continuar a insistir mas posso escolher desistir desse mundo das empresas, dos negócios, do dinheiro, da vaidade. É também o mundo da interacção que me faz falta, dos desafios, do trabalho em equipa, do risco, do perder e ganhar que provoca adrenalina. 

Tem sido difícil esta percepção. Trouxe-me de volta uma raiva que julgava apaziguada. Por isso, se algum dia encontrar certas pessoas, voltarei a tentar dar-lhes um murro na cara. Mesmo que parta a mão. Quanto mais tempo passa, mais sinto que o merecem.

Estou aqui a escrever e entram no écran n notificações de jornais com balanços de 2017, previsões de futuro, avisos de que o presidente saiu do hospital (ah como me souberam bem estes três dias sem o ouvir), anúncios de chuva para o réveillon (brrrr). Plins plins de mensagens têm ecoado no smartphone. Vejo as horas e já estou atrasada para o que tenho que fazer. 

O tempo. Em Janeiro, daqui a quinze dias, faço anos. Muitos. Nunca pensei que seria possível eu ter esta idade. É tão estranho envelhecer... A minha mãe disse-me há dias, com uma grande amargura, que agora percebeu que já é uma idosa. Pois.

Quero que o tempo ande mais devagar para aproveitar o bom que tenho. Não queremos todos? Sinto uma afeliação interior pelo estado do mundo, da sociedade, das pessoas. Uma impotência terrível face ao caos instalado. A última esperança é que o tempo abrande.

Tenho saudades dos anos 60 em que nasci e se gritava nas ruas: Peace & Love ou  Make love, not war! É o que desejo para 2018.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Enjoar.

Estou farta. Enjoada. De tanta notícia. Falsa e verdadeira. 
Destrinçar. Procurar. Ler. Descartar. Separar o trigo do joio. Aturar. Indignar-me. 

Cansada.
Apetece-me fazer listas. Daquelas gosto e não gosto. 

Tenho um livro do Umberto Eco, A Vertigem das Listas. 
Gosto de papel. De livros. De os ter, coleccionar, ler. Só folhear e sonhar ler. Um dia. Já não terei tempo. De vida para o fazer. 
Quero ler e reler. Mas já não o consigo fazer com a rapidez de outrora. O meu filho lê dez livros enquanto me arrasto com um. 

Consegui ler A Sibila da Agustina. De novo. 
Consegui extasiar-me com a beleza e riqueza da sua escrita. 
Pensar que nunca o conseguiria fazer. Escrever bem. É demais. Confirmei a impressão da juventude. Chata... Mas gostei. 
As mulheres de Agustina. Independentes. Fortes. Acima dos homens mesmo quando se deixam subjugar. 
Foi publicado em 1954, escrito anos antes. 

Descobri palavras desconhecidas. Li sempre de lápis, sublinhando. 
Increpar. Fui ao dicionário ver: repreender, acusar, censurar (do latim, incre-pâre).
Esbagachados. Não está no dicionário da Porto-Editora. Está num tal de Wikcionário "com decote muito aberto, com o peito à mostra". Termo transmontano. 

Com a Agustina é assim. 

O contrário da escrita do comum dos mortais. Aprende-se. Perceber que se chegou a esta idade desconhecendo tantas palavras. Muitas são do norte. Desculpo-me. Sou do sul. Carepa! Dizia a minha avó. Ao sul.

Sociedade. Política. Vida. A verdade. A justiça. Cilindradas até mais não.

Os grandes dramas. Os grandes temas. Ficam ao lado. 

Publico uma imagem arrepiante duma criança a morrer de fome. Deitada num estrado dum pseudo hospital. Não sei exactamente onde. Presumo que no Iémen. Agoniza. Ninguém vê. Tenho poucos gostos. Ou manifestação de tristeza. Ira. Nenhum comentário. Invisibilidade. Total. Não gosto.

Como se lida com isto? Como com a morte. 
A vida continua. O tempo continua. 

É natal. Uma época que nos lembra a religião. Porque me espanto tanto com o comportamento humano? Não estava tudo lá no velho testamento que o novo veio atenuar? 


Redes. Sociais. Ou não. Discussão. Exaustão. Exposição. Estamos todos presos.

sábado, 14 de outubro de 2017

Ler Devagar e Comer à Algarvia.

Finalmente um sábado sem programa.
Resolvi ir tomar um café à Ler Devagar na Lx Factory, juntando dois prazeres num só: fazer exercício, caminhando (são cerca de 6km ir e vir a pé) e dar uma volta pela livraria e espaço Lx. Assim fiz.

Saí quase ao meio-dia, o tempo morno e quente. O cabelo num oito e, ainda nem tinha chegado ao Palácio de Belém, já me caiam pingos de suor da testa.

Na zona frente ao Jerónimos e pastéis, havia ainda mais gente que nos outros dias. Olho sempre com alguma incredulidade as filas ao sol, algo para mim impossível.

Por enfim, lá cheguei à Lx Factory pela Rua da Junqueira, lixando os pulmões com a fumarada dos carros e autocarros (para quando os eléctricos?)

Nunca sei se gosto ou não da LX Factory. Tenho sempre a mesma sensação: acho piada ao tipo de lojas, restaurantes e frequentadores mas nunca consigo sair de lá satisfeita. Foi o caso.

Na Ler Devagar, bebi um café e uma água, só tinham tostas e agora não como pão fora do pequeno-almoço. 

A livraria é linda mas funciona como monumento nacional, turistas a entrar e a fotografar, cabeças viradas para cima, aparvalhados. Não queria gastar dinheiro, dei uma volta rápida pelos livros da entrada, muitos tenho,quase caí na tentação de comprar um ou outro mas pensei na lista de espera gigante que não sei se algum dia o deixará de ser.
Saí. Percorri rapidamente as ruas e voltei a sair decidida a comprar qualquer coisa para comer no caminho. 

Arrepiou-me ver passar alguns turistas de bicicleta, descontraídos no meio dos carros e do empedrado e carris da rua mas talvez tenham sobrevivido até ao destino.
Perto do Egas Moniz, pensei comprar umas empadas no S. Bernardo mas havia gente demais e as ditas cujas desaparecidas. 

Não dá, faço uma salada em casa, meia-hora e estou lá.
Oitocentos metros à frente, reparo num espaço pequeno, a Marafada Mercearia. Entro sem perceber que dava para almoçar. 

Foi uma felicidade este encontro. Passo ali tantas vezes a pé, quase sempre à noite, não me tinha apercebido que se trata dum sítio muito simpático, restaurantezinho e mercearia de algarvias com sotaque :) De Olhão. Foi amor à primeira vista!

Pedi uma salada Desalvorada mas havia a Marafada e a Almariada e, só soube depois, ovos com tomate que espero ir lá comer para a semana. Que maravilha de salada! Bem sentada, abrigada do calor, a comer e a descobrir os produtos nas prateleiras. Atrás têm um pátio ao ar livre muito giro. 

Claro que não resisti a um morgadinho para acompanhar outro café. E a trazer um cesto e mais uns temperos. Tudo a preços muito acessíveis. 

Perguntei se tinham turistas, só lá estavam mais duas pessoas. Que não. Que naquele bocadinho passa pouca gente, que estão a contar com a abertura da nova passagem da edp (maat). 

Porque não pôr uma cadeira e uma mesa do lado de fora à porta e um quadro a dizer que há petiscos algarvios? 

Voltei a casa com uma sensação de bem-estar. Aquele sítio salvou-me do desencanto da Lx Factory onde sinto sempre um falso velho.

Ando tantas vezes arredada da minha terra. Gostei que tivessem produtos verdadeiramente algarvios e não aldrabados. Têm alfarrobas!

No próximo sábado vou lá comer os ovos com tomate.


sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Sexta-feira 13

Sexta-feira 13. Tenho uma amiga que diz que dá sorte e não azar. Ela lá sabe, é uma optimista, mas a verdade é que, até agora, o dia não correu mal. 

Fui caminhar ao fim da tarde. Enquanto ando, lembro-me de assuntos que gostava de partilhar, construo frases para textos que idealizo escrever um dia, observo a realidade à volta, relaxo.

Com a luz a esmorecer, o sol ainda quente bate-me nas costas. Transpiro na testa, claro. Lá se vai a lisura do meu cabelo conseguida com detalhe e secador esta manhã. Suor e humidade são a conjugação perfeita para ficar com o cabelo eriçado, se fosse só ondulado. Uma luta de sempre, perdida.

Há imensa gente dum lado para o outro, novos e velhos e médios. Oiço sobretudo espanhol e brasileiro mas também português. Ainda o ano passado atravessar a ponte pedonal junto à Torre de Belém, num dia de semana às seis da tarde, era um acto isolado que nem o das finanças. Actualmente, é preciso abrandar o passo para não tropeçar em ninguém.

No passeio à beira Tejo, junto ao padrão, até ao maat, gente e gente, em terra e no rio. Cada vez há mais barcos de todo o tipo. Bicicletas, trotinetes, coisas cujo nome ignoro, grupos. 

Voyez-vous ce palais rose là-bas? C'est le palais présidentiel, explica um sujeito para um grupo a olhar para o dito cujo, ou para o miserável espaço de pedras soltas daquilo que já foi uma calçada. A escassos metros, a rua está, desde há muito, ocupada por auto-caravanas, quase sempre de matrícula francesa ou espanhola. Um casal entardote bebe um copo de vinho junto à sua roulote, mesmo ao lado do trânsito e do barulho da avenida da Índia, instalados em duas cadeiras de praia.

Penso na diversidade do mundo, nas diferenças, na beira-rio que antes era só nossa. Gosto deste movimento na cidade. Em semanas, uma improvisada esplanada junto à estação fluvial de Belém cresceu. Hoje estava cheia de jovens castelhanos, ou seriam catalães?

Volto a pensar em como o mundo podia ser fantástico para todos. Será que aqui no nosso canto conseguiremos safar-nos dos conflitos anunciados por todo o mundo? 

Quando viro para regressar a casa já se sente fresco, uma neblina que cai sobre o rio, nada de nuvens que tragam chuva. 

Penso que gosto das notícias que ouvi sobre o orçamento de estado para 2018, será que é mesmo verdade que vão reduzir-se substancialmente os IVA e IRS para quem factura apenas 10 ou 15 mil euros por ano? Valores nem de gorjeta para os ex-donos disto tudo... 

Está quase a fazer quatro anos que saí da empresa, como o tempo passa! 

Que anos tão maus foram esses, marcados pela mesquinhez dum governo cujo primeiro-ministro e adjunta das finanças sentiam um especial prazer em humilhar e mal tratar quem estava desempregado, ou era velho ou simplesmente pobre. Sem necessidade como se vê pelo contraditório do actual governo.

Não branqueiem agora a acção devastadora para os portugueses de Passos Coelho e "sus muchachos"... Não quero esquecer nunca o mal que fizeram.

Atravesso o CCB com muito pouca luz. Ao passar numa montra quase não me reconheço com o cabelo curto. É quando me vem à memória "a vida não pára, a vida não pára"  cantado pela Lia Gama, no Fado do Kilas:

"E na roda do destino
nunca se sabe o que se nos depara
e os que ainda andam na mó de cima
têm que saber que a roda não pára
e fatalmente o fim se aproxima
a vida não pára"

Escola Primária da Sé.



Esta foto veio ter comigo graças a uma ex-colega de Faro a quem muito agradeço.

Consegui reconhecer-me. Tal como à minha professora, Rosa Vieira, que continua igual passados 50 anos (ui, já?). Tal como à outra professora, a de óculos, Maria de Lurdes Reis, que foi professora da minha irmã. 

Tudo era diferente dos dias de hoje. A minha memória da escola primária não é de felicidade. 

Apesar de ser filha de uma das professoras, não deixava de apanhar réguadas por não ser sossegada, digamos assim. Acho que era boa aluna, com sofrimento na aritmética, sobretudo nos malditos problemas dos tanques que enchiam e cálculos de velocidades de comboios que até hoje nunca percebi para que serviam.

Parte das minhas colegas eram muito pobres, filhas de pescadores (a escola era a da freguesia da Sé, na zona antiga de Faro) e operários fabris, outras eram do chamado "asilo", presumo que um lar de miúdas órfãs. 


Lembro-me das batas brancas, do recreio, dos puxões de orelhas e do quente nas mãos provocado pelas réguadas, do tormento para decorar a tabuada, do medo do director que aparecia às vezes (o único homem no universo de mulheres, alunas e professoras), dos piolhos que de vez em quando apanhava e do sinistro exame da 4ª classe. 

E do vestido que usei no dia do exame, o calor desse dia e a dobra do papel, a dificuldade em fazer uma letra decente. 

Acho que a minha memória feliz só começa depois, no ciclo.
Caramba, sofria-se! Portugal era um país pobre e cinzento onde a liberdade e a alegria não cabiam.